Wednesday, September 5, 2007

Olhar mais em frente, mais além

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O final do séc. XIX início do XX assiste à mudança no mundo ocidental.
Os antigos cânones dão lugar a movimentos de vanguarda, que rompem com a tradição e com o mundo real e traduzem esse desejo de mudança. São um novo estar e uma nova linguagem que se reflectem nas diferentes expressões artísticas, pintura, música e literatura, áreas temáticas por excelência.
O relativismo e o incerto substituem o racionalismo e o absoluto, tendo como motores a relatividade de Einstein e a psicanálise de Freud.
São de vanguarda o Cubismo e o Abstraccionismo (disciplinados e racionais), o Fauvismo e o Surrealismo (emotivos e impulsivos) e outros que a par coexistiram.
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fauvismo (1905)
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O Fauvismo, movimento determinantemente francês, liderado por Matisse, é a primeira expressão vanguardista, rejeição do convencional. Aposta na cor expressiva e selvagem, agressiva até, solta e liberta, que se sobrepõe à forma cujos volumes distorce.
Apelidados de “feras” (les fauves), apropriaram-se desta designação. Falamos de Matisse, Maurice de Vlaminck, André Derain.
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Henri Matisse. La Leçon de Musique, 1917
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Maurice de Vlaminck. La Maison Bleue, 1906
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expressionismo (1905)
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Enquanto em França surge o Fauvismo, nasce na Alemanha (Dresden), com o grupo Die Brucke (A Ponte), o Expressionismo. É um grito de revolta e agressividade contra a moral excessiva que calava os estados de alma. Pintura de grande subjectividade, diz das emoções e, nas telas, deixa falar a angústia, a solidão, o desespero.
Kirchner, Rouault, Franz Marc, Max Beckmann, Otto Mueller, Emil, Nolde, Eduard Munch são os nomes mais sonantes.
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Ernst Ludwig Kirchner. Potsdamer Platz, 1914
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Max Beckmann. Frauenbad Women's Bath, 1919
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cubismo (1907)
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Influenciado por Cezanne, Picasso pinta Les Demoiselles d’Avignon, considerada a primeira obra do Cubismo que, em oposição ao Fauvismo, apela à simplificação, decompondo os objectos em formas geométricas.
A cor é menosprezada em favor da forma e volume, procura de uma beleza que não a tradicional influenciado pela máscara africana e sua volumetria.
O cubista não pinta a realidade que vê, mas o que se não vê, embora exista enquanto forma estrutural subjacente ao real. Com a destruição da tradicional perspectiva, o Cubismo abre a porta ao Abstraccionismo.
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Pablo Picasso. Les Demoiselles d'Avignon, 1907
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Georges Braque. Plat de Fruits, 1913
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abstraccionismo (1910)
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O traço e a cor em liberdade são as características do abstracto. Na origem do Abstraccionismo estão as telas de Kandinsky resultado das experiências expressionistas e cubistas. É a pintura completamente liberta da tradição e convenção, recusa do real e do visível.
O objecto dá lugar a linhas, cores e formas, belas ou não, composições onde o acessório se ausenta.
A Kandinsky juntam-se os nomes de Delaunay, Vieira da Silva e quase todos os cubistas.
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Wassily Kandinsky. Black and Violet, 1923
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Vieira da Silva. Bibliothèque en Feu, 1974
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futurismo (1909)
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O Futurismo surge com a publicação do I Manifesto Futurista de Marinetti, cântico da modernidade, movimento que se desenvolve em Itália na sucessão de outros manifestos do autor.
Rejeição do clássico e do tradicional, faz a apologia da tecnologia e da máquina, do ruído e do progresso. Parte do Cubismo, que rejeita, apresentando os objectos fragmentados em diferentes planos sobrepostos. A posterior identificação com o fascismo determina o seu enfraquecimento.
Umberto Boccioni, Gino Severini, Giacomo Balla são os artistas deste movimento.
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Umberto Boccioni. Volumi Orizzontali, 1912
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Gino Severini. Red Cross Train Passing a Village, 1915
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dadaísmo (1916)
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Tendo como ponto de partida outro poeta, o romeno Tristão Tzara, o Dadaísmo, ou movimento Dada, nasce na Suiça (Zurique). Retrata o desprezo pela violência e guerra, pelas regras sociais e pela arte em si, emprega o humor e o sarcasmo escarnecendo da expressão artística.
Negando os conceitos de arte e respectivas técnicas, o Movimento Dada faz da Antiarte a arte, elevando os objectos comuns a obras de arte.
Os nomes, Marcel Duchamp, André Breton, Hans Arp e Max Ernst.
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Marcel Duchamp. Le Roi et la Reine, 1915
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Max Ernst. At The First Clear World, 1923
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surrealismo (1914)
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O Surrealismo nasce na Suiça (Zurique), da influência do Movimento Dada, aquando do I Manifesto do Surrealismo de André Breton e sua cisão. Sequência do dadaísmo, a diferença consiste no vínculo que mantém com a doutrina de Freud.
Arte do irracional e do inconsciente, marcada pelos mundos onírico e da alucinação é a manifestação de arte mais individualista e o movimento mais inovador do pós-guerra.
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Yves Tanguy. Jour de Lenteur, 1937
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Giorgio Morandi. Natura Morta, 1938
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Caracterizam-no duas tendências, a abstracta, reprodução do mundo metafísico e a figurativa, reconstrucção do imaginário segundo um pendor poético.
Yves Tanguy, Joan Miro e Giorgio Morandi fazem parte da primeira, Salvador Dali, René Magritte e Marc Chagall da segunda.
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Salvador Dali. La Mano, 1930
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Marc Chagall. La Maison Bleue, 1917
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21 comments:

rigoletto said...

Aprendi mais com a leitura atenta deste post do que em muitos anos de alguma atençaõ à Pintura.
As características principais de cada "movimento", a exemplificação com alguns quadros, a sua escolha, a bela capacidade de síntese.

Obrigado.
Parabéns!

Zénite said...

Tão sábia, quão bela a descrição dos movimentos! Ajudada pela harmonia e serenidade do nocturno de Chopin.
Gosto de ler e “ouvir” os gritos de revolta dos movimentos que se insurgem contra os códices sociais e “legales” estabelecidos, contra a guerra, etc.

Vou fazer um copy & past para imprimir. Espero que não te importes.
Obrigado por mais esta lição desinteressada e gratuita.

Abraço.

Bandida said...

o caminho é este. um instinto à solta a procurar o limite.


magnífico teresamar!


beijo

B.
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triliti star said...

ando a correr e sem tempo, mas quiz passar por aqui.
o conhecimento e cultura (faço distinção entre os dois), que aqui encontro, encantam-me.

APC said...

Um prazer, este post!
Bem mais que isso, mas muito, muito isso!!! :-)))
Vou "guardá-lo".

TRIONFO AL GRAND said...

Adorei! Uma aula de História da Arte em poucos minutos e tão seguramente bem explicada! Quantas vezes lemos livros e livros do trabalho que aqui está postado e não conseguimos perceber!?!
Muito Bom! Mais que Excelente!! Muito Obrigada=)

isabel said...

Cheguei até aqui por sugestão de uma amiga. Parto de barriga cheia. Excelente aula de história de arte. Daquelas em que ficamos extasiados a ouvir o "mestre"!

Obrigada pela partilha, Teresa.

Zénite said...

Teresamaremar,

Volto para reler e rever, e para te dizer que, desta vez, não sucedeu a coincidência verificada em Ítaca. :)

O teu nocturno de Chopin lembrou-me um post que um dia colocara num blogue há muito apagado, escrito precisamente na quietude nocturna, enquanto ouvia a composição musical. Por isso o coloquei no meu blogue, tal como o fizera antes.

De qualquer forma, o meu obrigado, pois se por aqui não tivesse passado há dias, provavelmente não ressuscitaria aquele humilde escrito.

Abraço.

Luís Galego said...

excelente visita a este museu de belas artes....excelente, sempre excelente encontrar aqui Ernst Ludwig Kirchner e a sua Potsdamer Platz...

triliti star said...

uma selecção perfeita de imagens que as "legendas" explicam e complementam de forma exemplarmente sucinta.

Manuelinho said...

Um espaço deslumbrante o teu.

Haddock said...

teresa,
gostei de todos os blogues. excelentes imagens também.
optei por deixar esmola neste, mas tenciono contribuir nos outros. assim, vou passeando...

ahh, conhecemo-nos do quarto de dormir (triliti), não é?? frioleiras?? isabel também conheço uma, não sei é se é a mesma (não confirmei e agora se confirmo perco estas linhas...). a "minha" escreve primorosamente.

abraço!

teresamaremar said...

Obrigada Luís e Triliti pelas vossas visitas sempre simpáticas.


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Manuelinho

seja benvindo.


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Haddock

temo-nos cruzado sim, nuns espaços comuns.

Sorte a sua de ter uma Isabel que escreve primorosamente! Existe um cantinho dela também?

Grata pela visita.

Manuelinho said...

Tomei a liberdade de linkar este espaço. espero ser perdoado.
Grato pela atenção.

Barão Van Blogh said...

"Soberba a feminina visão
Imagem que embebeda o coração"

Votos de continuação de uma boa semana .

Pedrita said...

belíssima telas. sempre que falo de um livro que li no meu blog eu escolho pintores e telas do país e próximas ao ano que o livro foi publicado. coloco na busca e descubro alguns pintores menos conhecidos, ou alguns que são menos mencionados. gosto bastante dessa dinâmica. beijos, pedrita

Anonymous said...

p e r f e i t a!

bravo!


ELISABETE CUNHA

Teresa Durães said...

gostei bastante do post. alguns movimentos eram-me conhecidos. o dadaísmo confesso que desconhecia por completo.

André Breton acompanhou o surrealismo. Imagino que tenha também atravessado outras fases antes de enveredar pela outra tal Miró que teve o seu período Fauvista

É sempre um prazer conhecer mais

Zénite said...

Na respiração fresca do verão
que corre apressado para o equinócio
é bom vir aqui em bicos de pés ouvir Chopin
e reaprender os “ismos” de todos os módulos. :)

elisabete do encanto said...

UM dos posts mais perfeitos de arte que ja li!!

maravilhoso!!

saudades amiga!

APC said...

Voltei. Vim fazer revisões.
Porque muito esquece a quem não sabe.
E porque é mesmo um grande gosto! :-)