Thursday, March 20, 2008

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Religiosidade, rendas, objectos inanimados, frutos e flores, ao gosto feminino e inocente, ao sabor das estações do ano, ritmo sensual da natureza e revelação do divino, pois que os objectos pintados, profanos ou religiosos, são representações de Deus, bem como do espaço social limitado às muralhas de Óbidos, lugar, na época, de tertúlias literárias e artísticas, que privilegiavam o debate e as ideias.
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É a arte de Josefa d’Ayala e Cabrera, Josefa d’Óbidos (1630-1684), misto de poesia e sensações gustativas, num disciplinado rigor. Quentes tons e pinceladas de pétalas brancas sobre chão escuro.
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Filha do pintor Baltazar Gomes Figueira, nasce em Espanha, mas cedo a família regressa a Óbidos, terra de seu pai. Com catorze anos vivia no Convento de Sant’Ana, em Coimbra, enquanto o pai trabalhava no altar-mor da Igreja da Graça. Embora destinada à vida religiosa, não a seguiu. Porém, a arte devocional faz parte dos seus trabalhos, que realizou para conventos e igrejas, e, Meninos Jesus e cordeiros pascais engrinaldados de flores, havendo sido, também, retratista da família real portuguesa.
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Grandemente influenciada pelo Barroco, os seus interesses são diversificados, estampa, gravura, barro e desenho de tecidos. É na gravura que realiza os primeiros trabalhos, datados de 1646. E a pintura, onde se lhe atribuem influências de Zurbarán, católico, a quem vai buscar o tema do Cordeiro Pascal,
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Francisco de Zurbaran. Agnus Dei, c. 1636-40

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à gravura holandesa, protestante; do seu padrinho sevilhano Francisco de Herrera, el Viejo; as trevas de Caravaggio ou a luz de la Tour, os bodegones espanhóis de Van der Hamen ou Sánchez Cotán e as grinaldas de flores, estas originais em trabalhos conjuntos de Brueghel e Rubens (imagem abaixo), divulgadas em Espanha nas primeiras décadas de seiscentos.
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Jan Brueghel the Elder and Peter Paul Rubens. Madonna in Floral Wreath. c. 1620
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Porém, o seu verdadeiro mestre foi o seu pai, sofrendo as influências das estampas ítalo-flamengas existentes na residência de Óbidos. Dado viver nesta localidade, a sua pintura não pode ser considerada como entretenimento da corte, nem tão-pouco mera distribuição ordenada de objectos, mas possuidora de um potencial simbólico, de que os jogos de palavras e conceitos do séc. XVII faziam parte.
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Josefa foi essencialmente ela mesma, intuitiva, curiosa e gentil, isenta de influências académicas. Pintora já muito disputada no seu tempo, Josefa é a liberdade de criar.

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8 comments:

velha gaiteira said...

venho somente deixar os meus votos de boa Páscoa.

peregrino said...

Anjos, doces, cerejas, flores,
tintas, tons, texturas, cores,
e como uma nuvem branca, imaculada,
o “Cordeiro de Deus” imolado
sobre os altares de lírios da Páscoa.



Sublime, o que nos trazes. E saber que a obra desta distinta pintora nos chega dos anos que se seguiram à Restauração de 1640! É reconfortante. Porquê? Não sei, só sei que me reconforta. :)

Boa Páscoa, gentil pintora de palavras.

said...

É lindo o que vejo por aqui.

Uma Páscoa muito feliz.

Anonymous said...

No esquecimento comum a tantos vultos maiores da nossa Cultura, Josefa não de Óbidos, mas de todos, sevilhana sem castanholas nem salero, perdura no bom gosto de alguns, e na alma poética de um povo que a não merecia.

E se 1640 enche o ego de patriotas orgulhosos por oito séculos de História, coloquemos a atenção no que se passa no país vizinho, onde a Cultura é privilegiada, e como tal divulgada e alimentada.

Por pintores também.
Com ou sem palavras.

eusébio

Nilson Barcelli said...

Olha, aprendi imenso com este teu post, que de resto está feito com muito bom gosto e saber.

Obrigado pela partilha.

Bom resto de semana, beijinhos.

velha gaiteira said...

Reli, porque vim à procura de mais.
Mas não valia a pena!

Nunca é demais ler o que tu escreves!

Beijão!

isabel mendes ferreira said...

depuração!!!!!!!!


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enorme beijo.


T.

Bandida said...

tu sabes que gosto, muito!

beijo teresamar!