Friday, September 26, 2008

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François Girardon & Thomas Regnaudin. Apolo servido pelas ninfas, 1666
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Um dia, há muito tempo tive um sonho. Sonhei que formaria o melhor coro da História. Nesse sonho, as estátuas deste recinto ganhavam vida e, uma a uma, caminhavam até à estufa do pátio. A cada uma que entrava, eu dava vida. Então a estátua cantava com uma voz mágica e angelical. Quando esgotei as duzentas estátuas, o meu coro estava completo. Era um coro de vozes puras, libertas do seu latejo mortal, para sempre vivas…
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Fernando Trías de Bes. O Coleccionador de Sons, história de uma maldição.
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Deusas, Bacantes, Ninfas e outras que tais, elas foram o mote. Inspiradoras musas, que os artistas guiaram. A entidade feminina era o modelo. Mágica, poderosa, sensual e, porém, frágil.
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Prosper d'Epinay. Bacante, 1866
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Rodin. Orfeu e Eurídice, moldado c.1887, executado 1893
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Salvador Dalí. Venus de Milo, 1936
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Dura, difícil, talvez pouco delicada até, a pedra parecia menos indicada às mulheres. E a escultura, entre todas as artes - pintura, música, escrita… - concebia-se como a menos própria para a mulher artista.
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Mulheres escultoras houve-as sempre, ainda que, à semelhança da pintura, muitas esculturas houvessem sido, durante séculos, vendidas como obra de homens artistas. Talvez inclusivé Rodin se tivesse, também ele, apropriado do beijo de Camille, sua aluna e companheira.
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É no tardio século XIX que a mudança se opera, assistindo-se ao desafio levado a cabo pelas mulheres burguesas, fazendo das suas causas debate público, assim procurando uma alteração nos privilégios masculinos que dominavam a cultura elevada e a escultura neoclássica.
Dadas as insuficientes condições de trabalho nos Estados Unidos, onde o trabalho feminino era muito restrito, e cujo mecenato revertia para a estatuária pública, um grupo de mulheres escultoras desloca-se para a Europa no primeiro quartel de oitocentos, fixando-se em Roma. Fogem aos constrangimentos do casamento e levam vidas livres, porém, porque seguindo os códigos da virtude feminina, conseguiram que a sua independência ali fosse aceite. Entre elas, Hiram Powers (1805-1873), Harriet Hosmer (1830-1908), Louise Lanser (1862-1923), produziam trabalhos monumentais de personagens femininas tanto contemporâneas quanto históricas.
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Harriet Hosmer. Beatrice Cenci, 1857 (detalhe)
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Hiram Powers. A Escrava Grega, 1846
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E sim, Claudel. Camille (1864-1943)

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E Sarah Bernhardt (1844-1923)
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Sarah Bernhardt. Busto de Louise Abbéma, 1878
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Camille Claudel. As Conversadoras, 1895
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Camille Claudel. Vertumnus e Pomona, 1905
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O facto de estas artistas realizarem tais obras em mármores, algumas monumentais, contrasta com a noção veiculada de que a mulher apenas produzia trabalhos menores e caseiros, meros deleites ociosos. Ousadas, determinadas, lutadoras, da pedra fizeram poesia.
As inspiradoras musas volveram artistas, perderam em idealização, porém, materializando-se, construíram um caminho rumo à paridade.
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Janine Antoni. Lick & Lather, 1993
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15 comments:

SMA said...

O tempo retorna sim, revolta também, não em circulo mas em espiral
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como tudo de volta que bom!!!
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Exaltação perfeita a mulher eternizada

bjo mestre
:-)))

teresamaremar said...

Ahhh o tempo... eterna valsa lenta :)

beijo

Zénite said...

Sublime. Na idealização, na planificação, na exposição harmónica das palavras e das imagens. E, evidentemente, na focagem da rectidão da paridade homem/mulher, para que, de uma vez por todas, seja efectivamente atingido o primado da liberdade, do bom-senso e da razão, que o mesmo é dizer da Justiça.
Parabéns!

Abraço.

elisabete cunha said...

TERESA


Realmente me transporto quando venho aqui beber de sua cultura....

Minha doce e forte amiga!

Lembranças!

teresamaremar said...

Bom dia Zénite

devolver à mulher o seu lugar de direito, quase seria preciso refazer a História :)))

obrigada

teresamaremar said...

Um beijo grande Elisabete :)

saudades

Pedrita said...

camile claudel é sempre maravilhosa. belo texto. belas imagens. beijos, pedrita

rigi said...

gosto muito dessa brancura

o azul líquido da água
o branco de leite do mármore

nada de mais sedoso !

abcs

Rui Luis Lima said...

Olá Teresamaremar!
A história da escultura nascida do olhar feminino é infelizmente uma aventura maravilhosa desconhecida de muitos. Magnifica esta sua crónica:)
Beijinhos
Paula e Rui Lima

teresamaremar said...

Um beijo Pedrita.

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Sim Rigi... é isso mesmo que me fascina, a brancura, a pedra dura tornada sedosa.

:))) isso mesmo!

Um beijo

teresamaremar said...

Obrigada Paula e Rui :)

eu olho estas imagens e dão-me muito prazer sim. Como disse acima, é a brancura e a pedra tornada sedosa. Quase milagroso o que se consegue fazer com a pedra dura, fria e agreste.

beijo para ambos :)

NELSON said...

TERESA

Bete me trouxe ao seu blog e gostei muito do que vi.

LEMBRANÇAS ao João!

NELSON

teresamaremar said...

:) olá Nelson

um beijo grande para vocês.

Suyanne said...

Fiquei contente de econtrar este espaço. Lindas Imagens,belissímos textos.

teresamaremar said...

Olá Suyanne

obrigada pela visita, volte sempre :)