Sunday, October 14, 2007

Do Interseccionismo e do Cubismo

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CHUVA OBLÍQUA
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Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...
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O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...
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Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...
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(...)
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
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in Chuva Oblíqua, Fernando Pessoa, 1914
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Violin and Candlestick, Georges Braque, 1910
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paisagem ensolarada.porto sombrio e pálido
a horizontalidade.das águas
a verticalidade.das árvores
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os navios que saem do porto
são aquelas árvores ao sol
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linhas oblíquas sobre a horizontalidade
imagens móveis.coloridas.luminosas
texto-viagem.a viagem
recuperação de infância, paisagem interior
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todo o teatro é o meu quintal,
a minha infância
todo o teatro é um muro branco de música
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Os versos caminhando num dehors-dedans
do quarto onde se escreve para o sonho que se sonha
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a cor.círculo de sonho
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rotações confusas de cães verdes
e cavalos azuis e jockeis amarelos
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jogos de terra e mar
jogos de sombra e luz
lugares de dentro e fora
e o sonho.e a música
cada sensação… um cubo
a estética cubista, assente na intersecção significativa de planos
a linguagem geométrica
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E Braque.
as formas cúbicas, a intersecção das cores
o volume
cubos.poliedros.esferas
os objectos como os pensamos
Braque falando para a poesia e a música
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the senses deform
the mind forms
work to perfect the mind
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Georges Braque
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12 comments:

PostScriptum said...

O ideário vanguardista do início do século XX, utilizou as ideias baudelairianas sobre o tempo, o homem e a arte modernos, formando o conceito de modernidade pelo qual se pautaram por exemplo "os de Orpheu", redefinindo os conceitos de pluralidade e de inexistência, dando-lhe desta forma um aspecto de coesão, e, de certa forma, maturação da “mudança de visão do mundo” ocorrida principalmente a partir do século XIX, quando o homem foi obrigado a lidar com o que era “ser moderno” e com as transformações e fragmentação da realidade em seu redor.
Os valores ocidentais estavam – e estão – em crise como nunca estiveram antes. Tudo está sujeito a ser questionado e a reinterpretações. Os novos e controversos conceitos apresentados por Darwin, Marx e Freud demonstram a transformação de uma ordem até há pouco tempo estável. A revolução científica contribuiu para dissolver a confiança do ser humano em todos os seus sentidos, para anular a certeza positiva do século XIX acerca do mundo material.
Mesmo sendo a arte de vanguarda uma arte de ruptura, ela também é uma arte de continuidade – parece um paradoxo, não aprece? - já que, herdeira directa do romantismo, é levada a cabo através dos valores da tradição que critica. Saber-se parte de uma tradição, implica saber-se diferente dela, o que mais cedo ou mais tarde leva a interrogá-la e, na maioria das vezes até a negá-la.
Gostei desta tua abordagem às correntes vanguardistas que originaram de alguma forma, o futurismo.
Beijinhos, T.

nubívago said...

luz, sombras, brilhos, contraluz.
sem fronteiras, sem arestas, sem muros.
o momento perfeito na arte de partilhar a sombra, a cor, a claridade.
no tempo e no lugar, a correcta assimetria das ideias e objectos.

isabel mendes ferreira said...

és Esfera. e volume. denso.




e eu calo-me.



que outras vozes mais sábias dizem.

o dizível.



belíssimo Post.


à tua maneira!



beijo.

teresamaremar said...

Saber-se parte de uma tradição, implica saber-se diferente dela, o que mais cedo ou mais tarde leva a interrogá-la e, na maioria das vezes até a negá-la.

É... leva à interrogação, ao desejo de mudança, de fazer a diferença, e até a essa negação, que mais não é do que um outro passo em frente nesse rumo de inovação.

Origada Postscriptum

teresamaremar said...

Boa noite Nubívago

a correcta assimetria... a ordem nascendo do caos...

lembrei uma conversa com uma amiga, em que eu dizia
Esta minha mania das simetrias, sou, sem dúvida, herança renascentista
ao que ela responde
Pois eu cada vez gosto mais de assimetrias

:) e eu sorri... de facto...

teresamaremar said...

tu, que dizes o indizível

nessa tua maneira :)


beijo Y. beijo.

isabel mendes ferreira said...

ora...não haja dúvida de que tens uma amiga sábia..assimétrica?


_________________.



beijo.

Anonymous said...

Perfeito, como sempre perfeito!!

Ando com saudade sua, vc sumiu?


aparece, vc é importante para o encanto!


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BEIJOS MIL
ELISABETE CUNHA

Bandida said...

as cores em forma de música. distintíssima a palavra. em espirais da sensualidade mais poética.



beijo teresamar.


B.

PostScriptum said...

Sinto a ausência..

elisabete do encanto said...

SAUDADES QUERIDA!


:)

teresamaremar said...

O tempo tem escasseado :)